1
Havia um homem chamado Job, que vivia na terra de Uce . Era um homem bom e honesto, muito religioso e não fazia nada de mal.2
Job tinha sete filhos e três filhas3 e possuía muitos rebanhos: sete mil ovelhas e três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas burras. Tinha ainda um grande número de serviçais. Ele era, de facto, o homem mais rico entre todos os do Oriente.
4
Os seus filhos costumavam reunir-se, uma vez em casa de cada um dos irmãos, para fazerem banquetes, e convidavam também as suas três irmãs, para irem aos banquetes com eles.5
Mas todas as vezes que eles faziam uma festa, Job mandava-os chamar, passados aqueles dias, e pedia-lhes que se preparassem convenientemente. No outro dia, levantava-se cedo e oferecia animais em sacrifício, em nome de cada um deles. De facto, Job pensava consigo: «Pode acontecer que os meus filhos tenham cometido qualquer falta, ofendendo a Deus por um mau pensamento .» E assim fazia Job de todas as vezes que eles se reuniam.6
Certo dia em que todos os seres celestes se apresentavam diante do SENHOR, o acusador Satã encontrava-se igualmente lá com eles.7 O SENHOR perguntou a Satã: «Donde vens agora?» Ele respondeu: «Fui passear e dar umas voltas pela terra.»
8 Então o SENHOR perguntou-lhe: «Não reparaste no meu servo Job? Não há outro como ele no mundo! É um homem bom e honesto, muito religioso e não faz nada de mal!»
9
Satã respondeu ao SENHOR: «Achas que os seus sentimentos religiosos são desinteressados?10 Não é verdade que, tal como uma cerca, tu o proteges de todos os lados, a ele, à sua família e a tudo o que lhe pertence? Não é verdade que abençoaste todos os seus trabalhos, de tal modo que os seus rebanhos cresceram enormemente por todo o país?
11 Mas experimenta levantar a mão contra aquilo que é seu e verás se ele não te amaldiçoa, mesmo na tua frente .»
12
O SENHOR disse a Satã: «Tudo o que lhe pertence está à tua disposição, mas nele mesmo não podes tocar.» Depois disto, Satã retirou-se de junto do SENHOR.13
No dia marcado, quando os filhos e filhas de Job estavam a fazer festa em casa do irmão mais velho,14 um mensageiro foi dizer a Job: «As vacas andavam a lavrar e as burras a pastar perto dali
15 e nisto apareceram uns nómadas sabeus , que levaram consigo os animais e mataram à espada os teus servos. Só eu consegui escapar, para te vir dar a notícia.»
16
Ainda este não tinha acabado de falar e já tinha chegado outro, que disse: «Uma faísca enorme caiu do céu, sobre o rebanho e sobre os teus servos, e destruiu tudo. Só eu consegui escapar, para te vir dar a notícia.»17
Ainda este não tinha acabado de falar e já tinha chegado outro que disse: «Três grupos de nómadas caldeus atacaram os camelos, levaram-nos consigo e mataram os teus servos à espada. Só eu consegui escapar, para te vir dar a notícia.»18
Ainda aquele não tinha acabado de falar e já tinha chegado outro, que disse: «Os teus filhos e as tuas filhas estavam a fazer festa em casa do irmão mais velho19 e, de repente, um vento muito forte soprou dos lados do deserto, bateu contra os quatro cantos da casa, fazendo-a cair e matando-os a todos. Só eu consegui escapar, para te vir dar a notícia.»
20
Job levantou-se, rasgou a sua capa em sinal de luto, rapou o cabelo e inclinou-se por terra em adoração,21 dizendo:
«Eu saí nu do ventre da minha mãe22
E apesar de tudo isto , Job não ofendeu a Deus nem disse nenhuma palavra de protesto contra ele.1
Chegado o dia de os seres celestes se apresentarem diante do SENHOR, Satã apresentou-se mais uma vez com eles diante do SENHOR.2 O SENHOR perguntou de novo a Satã: «Donde vens?» E Satã respondeu de novo: «Fui passear e dar umas voltas pela terra.»
3 Então o SENHOR perguntou-lhe: «Não reparaste no meu servo Job? Não há outro como ele no mundo! É um homem bom e honesto, muito religioso e não faz nada de mal! Tu pretendeste fazer com que eu o arruinasse mas foi em vão. Ele continua firme na sua retidão!»
4
Satã replicou ao SENHOR: «Um homem é capaz de dar tudo o que tem e até a sua própria pele, para poder salvar a sua vida!5 Mas experimenta levantar a tua mão contra ele; faz com que ele sofra a doença nos seus ossos e no seu corpo e verás se ele não te amaldiçoa, mesmo na tua frente .»
6
O SENHOR respondeu-lhe: «Aí o tens à tua disposição. Mas poupa-lhe a vida.»7
Satã retirou-se de junto do SENHOR e fez com que Job sofresse de chagas horríveis, desde os pés à cabeça.8 Job agarrou num caco e com ele raspava a sua pele, sentado no pó da terra.
9
A mulher de Job dizia-lhe: «Ainda continuas firme na tua retidão? Amaldiçoa a Deus e morre de uma vez!»10
Mas Job respondia-lhe: «Estás a falar como uma ignorante qualquer! Se recebemos o bem da mão de Deus, por que não havemos de receber também o mal?» E apesar de tudo isto, Job não pronunciava uma palavra ofensiva contra Deus.11
Três amigos de Job ouviram falar de todas as desgraças que tinham caído sobre ele. Eram: Elifaz de Teman , Bildad de Chua e Sofar de Naamá . Saíram cada um de sua casa e combinaram ir juntos levar a Job um pouco de amizade e de conforto.12 Quando o viram de longe, nem o reconheciam. E cada um deles, a chorar em voz alta, rasgou a sua capa e atiraram cinza por cima das suas cabeças, em sinal de tristeza.
13 E assim ficaram com ele sentados no chão, sem nenhum deles lhe dirigir uma palavra, sete dias e sete noites, pois viam que era enorme o seu sofrimento.
1
Ao fim dos sete dias, Job decidiu falar, para amaldiçoar a sua vida2 e, tomando a palavra, exclamou:
3
«Desapareça o dia em que nasci,
a noite em que se disse: “É um rapaz !”
4
Que esse dia se transforme em escuridão;
que Deus, lá do alto, deixe de cuidar dele
e que a luz o não venha iluminar!
5
Que a escuridão mais sombria se apodere dele
e o envolva qual nuvem negra,
como um eclipse do Sol que espalha o terror.
6
Que as trevas dominem aquela noite,
de modo que ela não apareça mais no calendário
nem entre no número dos meses.
7
Que essa noite seja declarada estéril
e não se ouçam mais nela gritos de alegria.
8
Que a desfaçam os que amaldiçoam o oceano ,
os que são hábeis em esconjurar o monstro marinho .
9
Que as suas estrelas da manhã escureçam,
que elas esperem em vão pela luz do dia
e não cheguem a ver os raios da aurora,
10
por não me ter fechado a saída do ventre,
evitando que eu chegasse a ver tanta miséria.
11
Por que é que eu não morri ao nascer,12
Por que é que me acolheram no regaço
e me deram o peito para eu mamar?
13
Eu estaria agora deitado a descansar;
estaria hoje a dormir tranquilamente,
14
junto com reis e grandes homens de estado,
que construíram para si enormes monumentos,
15
ou com os príncipes ricos em ouro,
que encheram de prata os seus palácios.
16
Quem me dera ter sido como um aborto que se enterra,
como feto que não chegou a ver o dia.
17
No sepulcro, os maus já não fazem mais mal18
Ali todos os prisioneiros repousam,
sem ouvir a voz do opressor.
19
Ali estão o grande e o pequeno
e o escravo fica livre dos seus donos.
20
Por que é que ele dá luz a um desgraçado,21
Esses esperam pela morte que não vem
e procuram-na mais do que um tesouro escondido.
22
Ficariam tão contentes e satisfeitos
por alcançarem finalmente o sepulcro!
23
Por que é que Deus nega uma saída
ao homem que já não vê sentido para o seu caminho?
24
Em vez de comida, só me aparecem lágrimas;
servem-me gemidos em vez de água para beber.
25
Aquilo que eu tanto temia caiu sobre mim,
o que me aterrorizava aconteceu-me.
26
Não tenho sossego nem repouso;
vivo sem descanso, entre sobressaltos.»
1
Elifaz de Teman disse então:2
«Se alguém te dirige a palavra, serás capaz de o ouvir?
E quem conseguiria agora conter as palavras?
3
É verdade que tu ensinaste a muitos
e deste força às mãos enfraquecidas.
4
As tuas palavras davam firmeza aos que cambaleavam
e segurança aos que se não aguentavam de pé.
5
Mas quando te toca a ti, não aguentas;
quando te atinge, ficas aterrorizado.
6
Será que a tua piedade não dá coragem,
nem o teu bom comportamento te dá esperança?
7
Lembras-te por acaso de algum inocente
ou alguma pessoa honesta sucumbir à desgraça?
8
Pois eu vi que quem planta maldade e semeia opressão
é isso mesmo o que vai recolher.
9
Com um simples sopro de Deus, eles acabam
destruídos pelo furor da sua ira.
10
São rugidos de leopardo e gritos de chacal.
Mas os dentes dos leões são quebrados.
11
Sem as suas presas, os leões definham
e os seus filhotes andam errantes.
12
Recebi em segredo uma mensagem;13
num sonho, numa visão noturna,
quando o sono cai sobre a Humanidade .
14
Caiu sobre mim o terror,
todo o meu corpo se transiu de medo.
15
O vento bateu no meu rosto
e todos os meus cabelos se puseram em pé.
16
Estava na minha frente, mas não o reconheci;
era como uma imagem diante de mim, em silêncio.
Mas depois ouvi uma voz a dizer:
17
“Será que um homem se pode declarar inocente
ou puro contra a opinião de Deus, seu criador?”
18
Até dos seus servos ele tem motivos de desconfiança
e nos seus mensageiros encontra defeito.
19
Pois como estarão limpos diante do seu criador
os que têm a sua morada na terra
e vivem mergulhados no pó
20
e no espaço de um dia são despedaçados?
Sem que se dê por isso, desaparecem para sempre .
21
Eis que se quebram as cordas da sua tenda
e eles morrem sem alcançarem a sabedoria.»
1
«Grita, para ver se alguém te responde!2
O insensato revolta-se e morre por causa disso;
o ignorante é invejoso e por isso está condenado.
3
Já vi um insensato a prosperar,
mas amaldiçoei logo a sua família:
4
“Que os seus filhos fiquem sem ajuda
e sejam maltratados no tribunal, à porta da cidade,
sem ninguém que os defenda.
5
Que a sua colheita seja devorada pelos esfomeados
e lhe seja roubada, apesar da sebe de espinhos;
que os gananciosos se apoderem da sua riqueza.”
6
Pois a injustiça não nasce da terra
nem a miséria brota do chão.
7
É do próprio homem que nasce a miséria,
como centelhas a saltar do fogo e voando pelo ar.
8
Se fosse eu, voltava-me para Deus9
Ele faz maravilhas insondáveis
e prodígios que não têm conta.
10
Dá a chuva à terra,
manda a água para regar os campos;
11
faz levantar os humildes
e dá segurança aos aflitos;
12
desfaz os planos dos astuciosos
e não conseguem o resultado pretendido.
13
Apanha os espertos na sua esperteza
e os seus planos perversos caem por terra.
14
De dia, só acharão escuridão,
e ao meio-dia, andarão às apalpadelas como de noite.
15
Assim salva Deus o pobre da espada afiada,
da língua e do poder dos prepotentes.
16
Para os fracos há motivos de esperança,
enquanto os criminosos têm de calar a boca.
17
Feliz o homem que aceita que Deus o corrija18
Pois se Deus faz uma ferida, ele mesmo a trata
e para o golpe que faz, ele mesmo dá a cura .
19
Deus livra-te de muitas aflições
e nenhum mal te atingirá.
20
Em tempo de fome, salva-te da morte
e na guerra livra-te da espada.
21
Evita que sejas açoitado pelas más línguas
e não terás medo diante de nenhuma desgraça.
22
Poderás rir-te da desgraça e da fome
e não temerás as feras selvagens.
23
Farás aliança com as pedras do campo
e os animais selvagens deixar-te-ão em paz.
24
Então verás que a tua casa está em segurança
e que nas tuas pastagens nada te falta.
25
Terás a certeza de que os teus descendentes
serão tantos como os rebentos na erva do campo.
26
Descerás ao sepulcro sem ter perdido as forças,
como um feixe de trigo maduro, na altura própria.
27
É isto que temos como certo e provado.
Presta, portanto, atenção e tem-no em conta.»
1
Job respondeu:2
«Se alguém quisesse pesar o meu penar
e colocar juntamente a minha desgraça numa balança,
3
veria que é mais pesada que a areia do mar.
Por isso, as minhas palavras se descontrolam!
4
As flechas do Todo-Poderoso voltaram-se contra mim
e tive de suportar o seu veneno;
Deus desencadeou contra mim males terríveis.
5
Será que o burro selvagem zurra diante da sua erva
ou o boi muge diante da sua comida?
6
Mas quem é que suporta uma comida sem sal,
quem encontra gosto em algo insípido ?
7
Não sou eu que me atrevo a tocar-lhes;
para mim, é como se fosse comida estragada.
8
Só queria que Deus me respondesse a um pedido
e realizasse este meu desejo:
9
que Deus se dignasse esmagar-me,
que me retirasse a sua proteção e me destruísse!
10
Mesmo assim, eu teria ainda conforto;
mesmo torturado sem piedade, saltaria de alegria,
por não ter renegado as palavras do Deus santo.
11
Que forças me restam para resistir?
Que futuro espero eu, para ter paciência?
12
Será que tenho a resistência das pedras?
Será que o meu corpo é feito de bronze?
13
Já não tenho em mim mais recursos ;
o sucesso está fora do meu alcance.
14
Quem recusa ao seu amigo a misericórdia,15
Mas os meus amigos enganaram-me,
como um ribeiro que ficou sem água.
16
Primeiro, correm cheios a transbordar
com os restos do degelo e da neve,
17
mas quando o tempo aquece, eles baixam
e, com o calor, desaparecem completamente.
18
Por isso, as caravanas desviam-se do seu caminho,
entram pelo deserto dentro e perdem-se.
19
As caravanas de Temá procuram descobri-lo,20
mas as suas esperanças ficam desiludidas;
ao aproximarem-se sentem-se desapontados.
21
Também vocês me não valeram de nada;
viram os meus males e ficaram cheios de medo.
22
Pedi-vos porventura alguma coisa?
Pedi-vos que me dessem parte da vossa riqueza,
23
que me libertassem do inimigo
ou me resgatassem dos opressores?
24
Instruam-me que eu quero ouvir em silêncio;25
Como é que uma palavra verdadeira podia ser dura?
Como é que um aviso vosso me podia ferir?
26
Querem porventura criticar as minhas palavras?
Mas as palavras de um desesperado são como o vento!
27
Vocês seriam capazes de jogar um órfão aos dados
e de vender até um dos vossos amigos.
28
Mas olhem para mim, por favor!
Vejam que não estou a mentir na vossa cara.
29
Mais uma vez, por favor, e sem fingimento,
mais uma vez, que está em causa a minha inocência:
30
será que nas minhas palavras há mentira?
Será que eu não sei expor a verdade?»
1
«O homem está na terra a cumprir duro serviço,2
Como um escravo, suspira pela sombra,
como um assalariado, anseia pela paga.
3
A sorte que me coube foram meses a esperar em vão,
o que me deram foram noites e noites de sofrimento.
4
Quando me deito, penso:
“Quando conseguirei levantar-me?”
A noite é longa e farto-me de dar voltas até de manhã.
5
O meu corpo está coberto de vermes e pó,
a minha pele, cheia de chagas purulentas.
6
Os meus dias passam mais rápidos que uma lançadeira
e chegam ao fim sem qualquer esperança .
7
Lembra-te de que a minha vida é como o vento8
Quem olhar para mim deixará de me ver,
porque o teu olhar caiu sobre mim e me aniquilou.
9
Como nuvem que se desfaz e desaparece,
também o que desce ao sepulcro não volta a subir.
10
Não regressa mais à sua casa
e a sua morada nunca mais o reconhecerá.
11
Por isso, não vou deixar de falar;
falarei da angústia que me oprime,
darei a conhecer a minha amargura.
12
Serei eu o mar ou outro monstro marinho,
para te pores de guarda contra mim ?
13
Ainda pensei que, se me deitasse, estaria sossegado,
que isso aliviaria as minhas queixas.
14
Mas tu aterrorizas-me com pesadelos,
fazes-me ver coisas que me metem medo,
15
de modo que eu preferia morrer estrangulado
a viver com este meu horrível esqueleto .
16
Não posso viver para sempre;
deixa-me, que os meus dias não passam de uma ilusão!
17
Que é um homem para lhe dares importância,18
Por que o vens revistar todos os dias
e continuamente o pões à prova?
19
Por que é que não desvias de mim o olhar
e nem sequer me deixas engolir a saliva?
20
Que mal fiz eu contra ti, ó juiz da Humanidade?
Por que me escolheste para teu alvo?
Será que me tornei um peso para ti, ó Deus altíssimo?
21
Por que não perdoas tu o meu pecado
e não fazes desaparecer a minha culpa?
Em breve estarei no sepulcro
e, se então me procurares, não me encontras.»
1
Bildad de Chua replicou:2
«Até quando vais falar dessa maneira?
As tuas palavras são como um vendaval!
3
Será que o Deus todo-poderoso distorce a justiça
e não reconhece quem é inocente?
4
Os teus filhos devem ter cometido faltas contra Deus
e ele fê-los pagar as consequências do seu pecado.
5
Mas se tu te levantas de manhã cedo,
para pedires perdão ao Deus todo-poderoso,
6
se fores honesto e justo,
ele decerto cuidará de ti
e te compensará da maneira que mereces.
7
O teu passado terá pouca importância,
comparado com o futuro maravilhoso que te espera.
8
Vai perguntar às gerações passadas9
Nós só nascemos ontem e nada sabemos ainda;
a nossa vida é uma pequena sombra sobre a terra.
10
Mas eles hão de instruir-te e ensinar-te
as verdades tiradas da sua experiência.
11
Será que o papiro pode crescer fora do pântano
ou o junco onde não houver água?
12
Secaria mais depressa que outras plantas,
mesmo antes de estar criado e arrancado.
13
Pois esse é o destino dos que se esquecem de Deus,14
Aquilo em que confia não passa dum fio quebradiço
põe a sua esperança numa teia de aranha.
15
Se se encosta à sua casa, ela não resiste,
se se agarra a ela não se aguenta de pé.
16
São como árvore verdejante, que resiste ao sol
e espalha os seus ramos sobre o quintal.
17
As suas raízes estendem-se por entre as pedras
e agarram-se aos muros da casa.
18
Mas se a arrancam do seu lugar,
este há de renegá-la, dizendo: “Nunca te vi”.
19
Assim termina a sua alegre vida
e da terra nasce outra árvore diferente.
20
Mas Deus não rejeita aquele que é honesto21
Deus pode ainda encher-te de alegria
e fazer com que possas dar gritos de contentamento.
22
Os que te querem mal ficarão cobertos de vergonha
e a morada desses malvados desaparecerá.»
1
Job replicou:2
«É verdade! Eu sei que é assim,
que um homem não pode ter razão contra Deus .
3
Mesmo que se queira discutir com ele,
quem lhe pode responder a uma questão entre mil ?
4
Quem é suficientemente sábio e corajoso,
para lhe resistir e ficar ileso?
5
Ele desloca as montanhas, sem ninguém dar por isso,
e destrói-as, quando está irado;
6
arranca a terra do seu lugar
e faz estremecer as suas bases .
7
Dá uma ordem ao Sol e ele não se levanta;
encerra as estrelas com um selo.
8
Ele estendeu sozinho a abóbada celeste
e caminha sobre o mar profundo;
9
criou as constelações da Ursa, Orion e Plêiades
e os esconderijos do vento sul;
10
fez maravilhas insondáveis
e prodígios sem conta .
11
Ele passa por mim e não o vejo,
passa sem que eu me aperceba disso.
12
Se tira alguma coisa, quem lhe pode resistir
e dizer-lhe: “Que estás a fazer?”
13
Quando Deus se irrita, não volta atrás;
a seus pés inclinam-se os monstros marinhos .
14
Como é que eu lhe poderia responder?15
Mesmo que eu tenha razão, não consigo responder
e tenho de pedir clemência ao meu juiz.
16
Mesmo que eu chamasse e ele me respondesse,
não teria a certeza de que ele me tinha escutado .
17
Mesmo que me espreite do meio da tempestade
e aumente sem motivo as minhas chagas;
18
ainda que não me deixe tomar fôlego
e me encha de amargura!
19
Em questão de força, ele é o mais forte;20
Mesmo que eu me declare inocente, ele condena-me
e castiga-me, sem eu ter culpa.
21
Mas eu estou inocente
e já não me preocupo comigo mesmo,
já não tenho interesse pela vida!
22
Por isso, digo: “Tudo vale o mesmo!”
Deus destrói o inocente como o culpado.
23
Se uma desgraça repentina semeia a morte,
ele ri-se do desespero do inocente.
24
A terra fica entregue aos maus
e ele fecha os olhos a quem devia julgar.
Se não é ele que o faz, quem é então?
25
Os meus dias correm mais rápidos que um atleta,26
desaparecem como barcos de papel,
como águia caindo sobre a presa.
27
Se digo a mim mesmo: “Vou esquecer o meu sofrimento;
vou mudar de cara e aprender a sorrir”,
28
de novo me angustio perante o sofrimento,
pois sei que não reconheces que sou inocente.
29
Se vou ser condenado,
para quê esforçar-me inutilmente?
30
Ainda que me esfregasse com sabão
e lavasse as mãos com potassa,
31
tu me afundarias na lama
e as minhas roupas ficariam horrivelmente sujas.
32
Ele não é um homem, como eu sou,
para eu lhe responder e desafiar a tribunal.
33
Oxalá existisse alguém para arbitrar entre os dois34
Se ele deixasse de me bater
e acabasse o terror que me angustia,
35
eu falaria sem ter medo,
mesmo que, para ele, eu não tenha razão .»
1
«Estou farto desta minha vida!2
Peço a Deus: Não me condenes;
diz-me o que tens contra mim!
3
Parece-te bem oprimires-me e desprezares-me,
quando foste tu que me criaste
e enquanto deixas que os maus realizem os seus planos?
4
Será que a tua maneira de ver as coisas
é igual à de qualquer homem?
5
Será que não tens mais experiência,
mais anos de vida do que qualquer mortal?
6
Por que é que tentas encontrar em mim
qualquer culpa ou pecado?
7
Sabes bem que não sou culpado
e, mesmo assim, ninguém me livra da tua mão.
8
Tu me criaste e modelaste com as tuas mãos;
e agora voltas-te para me destruir?
9
Lembra-te que me formaste com o barro!
Vais transformar-me de novo em pó?
10
Tu fizeste o meu corpo,
como quem coalha leite, para fazer queijo .
11
Teceste-me de ossos e músculos
e cobriste-me de carne e de pele.
12
Deste-me a vida e trataste-me com amor
e os teus cuidados têm-me conservado em vida.
13
Mas agora sei que no fundo do teu coração14
Se eu pecasse, havias de pedir-me contas
e não passavas sem castigar a minha culpa.
15
Se fosse culpado, ai de mim!
Mas se eu fosse inocente,
também não poderia levantar a cabeça,
sempre humilhado e coberto de aflição.
16
Se levantasse a cabeça, agarravas-me como um leão
e voltavas a fazer prodígios contra mim.
17
Intensificavas o teu furor contra mim
e ficavas ainda mais irado comigo,
tratando-me cada vez com mais dureza.
18
Então por que me fizeste nascer?
Podia ter morrido, sem ninguém me chegar a ver.
19
Seria como se eu não tivesse existido;
do ventre seria levado ao sepulcro.
20
Os meus dias são breves!21
antes de ter de me ir embora,
sem esperança de voltar,
para a terra da sombra e das trevas,
22
terra negra e sombria,
de trevas e confusão,
onde até a luz é escuridão.»
1
Sofar de Naamá disse, em resposta:2
«Será que tanto palavreado vai ficar sem resposta?
Será o muito falar que dá razão a alguém?
3
Os teus discursos podem fazer calar um homem,
podes fazer pouco dos outros, sem que ninguém te envergonhe;
4
podes dizer: “O que eu digo é a verdade;
estou sem culpa diante de ti .”
5
Oxalá fosse Deus a dirigir-te a palavra,
para pronunciar a sua sentença contra ti.
6
Ele te revelaria os segredos da sabedoria,
demasiado profunda para ser compreendida.
E fica a saber que Deus te pede contas da tua iniquidade.
7
Serás capaz de compreender o mistério de Deus8
É mais alto que o céu e mais profundo que o abismo.
Que poderás fazer para o compreender?
9
É mais extenso do que a terra
e mais largo do que o mar!
10
Se ele prende alguém e o leva a julgamento,
quem lhe poderá resistir?
11
Ele sabe quem são os falsos e vê onde está o mal,
sem precisar de grandes esforços.
12
Os insensatos hão de ganhar entendimento,
quando um burro selvagem nascer domesticado .
13
Mas se te voltares para Deus de coração sincero14
se afastares de ti o mal que tiveres cometido
e não deixares que a injustiça se aloje em tua casa,
15
então poderás levantar a cabeça sem vergonha,
estarás firme e sem medo.
16
Poderás esquecer-te do mal,
só te lembrando dele como águas passadas.
17
A tua vida brilhará mais que o Sol do meio-dia
e a escuridão da noite será manhã radiosa.
18
Confiante, sentirás que há motivos para ter esperança
e, olhando em volta, vais dormir descansado.
19
Nada irá perturbar o teu sono
e muita gente te há de prestar homenagem.
20
Os maus ficarão esgotados,
à procura de refúgio sem o encontrarem,
e a sua única esperança é morrer.»
1
Job respondeu:2
«Realmente, vocês sentem-se importantes
e pensam que, quando morrerem, se acaba a sabedoria!
3
Mas eu também tenho inteligência
e não sou menos do que vocês.
Quem é que não sabe tudo isso?
4
Estou sujeito ao riso dos amigos!5
Para os orgulhosos e satisfeitos,
o homem que escorrega é uma coisa desprezível.
6
As casas dos ladrões têm prosperidade
e os que provocam a Deus vivem seguros,
pensando que têm Deus na mão .
7
Mas pergunta aos animais que eles te informarão,8
Vai falar com a terra que ela te informará,
os peixes do mar contar-te-ão como é.
9
Desta maneira, quem é que não sabe
que tudo o que acontece é obra do SENHOR?
10
Pois na sua mão está a vida de todos os seres vivos
e o espírito que anima todos os seres humanos .
11
O ouvido sabe distinguir as palavras,
como o paladar distingue o sabor que lhe agrada.
12
A velhice dá sabedoria,
uma vida longa produz inteligência.
13
Por isso, ele tem a sabedoria e o poder,
compreende e percebe tudo.
14
O que ele destrói não volta a ser construído;15
Se ele não deixa cair a chuva, é a seca;
se faz chover demais, as cheias devastam a terra.
16
Ele tem poder para triunfar;
a ele pertencem o burlão e a vítima,
17
Ele despoja os grandes e manda-os embora
e põe os governantes a ridículo;
18
desaperta o cinturão real aos reis
e deixa-os nus diante de todos;
19
despoja os sacerdotes e manda-os embora
e derruba os que estavam instalados;
20
faz perder a palavra aos presumidos
e tira a sensatez aos velhos;
21
põe a ridículo os grandes
e deixa os poderosos sem defesa.
22
Põe à vista o que está escondido nas profundezas
e traz à luz do dia o que estava na escuridão.
23
Engrandece os povos e depois destrói-os,
fá-los crescer e manda-os para o exílio.
24
Tira o entendimento aos chefes do povo
e faz com que percam para sempre o caminho.
25
Fá-los andar perdidos, sem encontrarem a luz,
às apalpadelas na escuridão, como se fossem bêbedos.»
1
«Tudo isto fui eu vendo e ouvindo2
Aquilo que vocês sabem também eu sei,
não sou menos que vocês.
3
Quem me dera poder falar com o Todo-Poderoso,
para assim poder discutir com Deus.
4
Pois vocês têm palavras insensatas
e são como médicos charlatães!
5
Seria melhor ficarem calados;
seria da vossa parte uma atitude de sabedoria.
6
Prestem atenção ao que eu tenho para conversar,7
Será que se devem expor a Deus os pecados
e não se lhe podem expor os problemas?
8
Será que Deus fica irado,
se alguém pretende discutir com ele?
9
Achavam bem que ele vos sujeitasse a julgamento?
Tentariam enganá-lo, como se engana um homem?
10
Pois ele há de repreender-vos com toda a certeza,
se forem injustos, mesmo às escondidas.
11
A sua grandeza não vos atemoriza?
Não se sentem cheios de medo diante dele?
12
Os vossos argumentos são leves como o pó
e a vossa réplica é uma muralha de lama.
13
Calem-se e deixem-me a mim falar.14
Seja o que for, mesmo que as minhas palavras
ponham em risco a minha própria vida!
15
Se ele me condenasse à morte, eu teria confiança
e defenderia diante dele o meu comportamento .
16
Se o conseguir, será a minha vitória,
pois ninguém de má-fé consegue chegar à sua presença.
17
Escutem bem o que tenho a dizer,
deem ouvidos ao que eu vou expor.
18
Eu próprio apresentei a questão,
porque sei que estou inocente!
19
Quem quer vir discutir comigo?
Se agora me calo, acho que morro!
20
Ó Deus, só te peço dois favores,21
afasta de mim os teus castigos
e que o teu furor me não oprima.
22
Depois podes perguntar que eu respondo
e podes replicar ao que eu disser.
23
Que maldades ou pecados tenho eu?
Mostra-me os meus crimes e pecados!
24
Por que é que desvias de mim o olhar
e me tratas como teu inimigo ?
25
Precisas de meter medo a uma folha caída
ou correr atrás de uma palha seca?
26
Fizeste contra mim um relatório de rebeldias
e continuas a fazer-me pagar por erros da infância.
27
Prendes os meus pés com cadeias
e observas todos os meus passos,
anotando em pormenor toda a minha vida.
28
Mas a minha vida desfaz-se como madeira podre,
como roupa que a traça vai roendo.»
1
«O ser humano, nascido da mulher,2
Como uma planta desenvolve-se e murcha,
até desaparecer como sombra passageira .
3
É isto que eu sou; e foste fixar em mim o teu olhar,
para me levar a julgamento diante de ti!
4
Quem pode tornar puro o que é impuro?5
A vida do homem tem um prazo determinado;
tu conheces o tempo que vai ela durar
e traçaste limites que não pode ultrapassar.
6
Não o vigies assim; deixa-o tranquilamente
passar sossegado o seu dia de trabalho.
7
Uma árvore tem sempre esperança;8
Mesmo que a raiz envelheça na terra
e o seu tronco seque no chão,
9
mal sente a água volta a renovar-se
e nascem ramos, como quando foi plantada.
10
Mas se um homem morre, não tem mais recursos.
Se deixa de existir, que mais lhe resta?
11
Podem acabar as águas nos lagos
e os rios ficar secos como o deserto!
12
Mas nenhum defunto se levantará mais;
até que desapareçam os céus, eles não despertarão,
não acordarão do seu sono.
13
Quem dera que tu me pudesses guardar,
escondido entre os mortos,
até passar o teu furor contra mim!
Quem dera que marcasses um prazo,
para te lembrares de mim!
14
Mas quando um homem morre, poderá voltar a viver?
Se assim fosse, não lamentaria as dificuldades da vida;
15
quando chamasses por mim, eu responderia,
sentindo o teu carinho por mim,
este ser que tu criaste.
16
Em vez de observares todos os meus passos, como agora,
não prestes tanta atenção aos meus pecados;
17
Assim colocarias em saco bem fechado os meus crimes
e encobririas as minhas maldades.
18
Uma montanha pode cair e desfazer-se;19
a água vai desgastando as pedras,
as grandes enchentes arrastam a terra;
e tu destróis a esperança do homem.
20
Derruba-lo e ele desaparece para sempre,
deixa-lo desfigurado e manda-lo embora.
21
Os seus filhos podem crescer ou arruinar-se
que ele não chega a saber de nada.
22
Só consegue sentir as suas próprias dores
e lamentar o seu próprio sofrimento.»
1
Elifaz de Teman respondeu então:2
«Quem é sábio não dá respostas ocas,
nem se alimenta de ideias vazias como o vento;
3
não discute com argumentos sem força,
com palavras que não podem convencer ninguém.
4
Tu destróis os sentimentos religiosos,
desprezas o espírito de oração.
5
As tuas palavras aumentam mil vezes os teus crimes,
escolhendo argumentos astuciosos.
6
A tua boca é que te condena e não eu;
as tuas palavras respondem contra ti.
7
Pensas que foste o primeiro homem a existir ,8
Estiveste presente quando Deus reuniu conselho,
para te apoderares da sabedoria?
9
Que sabes tu que nós não saibamos?
Que sabedoria tens que nós não tenhamos também?
10
Há entre nós quem tenha o cabelo branco
e seja mais velho do que o teu pai.
11
Não aprecias que te confortem em nome de Deus
e te deem uma palavra de apoio?
12
Que é que te tirou o entendimento?13
e te voltaste assim contra Deus,
pronunciando palavras injustas?
14
Como é que um homem se pode considerar inocente?
Como pode um simples mortal pensar que tem razão ?
15
Nem os seus anjos Deus considera absolutamente fiéis,
nem os céus completamente puros.
16
Quanto mais detestável e corrompido lhe não parecerá
o homem que bebe maldade como quem bebe água?
17
Ouve! Quero dizer-te uma coisa;18
aquilo que os sábios transmitiram
e já os seus pais lhes tinham comunicado,
19
aqueles que receberam de Deus o país,
sem que nenhum estranho lá ficasse com eles.
20
Os maus passam a vida na angústia,
o tirano tem poucos anos para viver.
21
Vozes de terror ecoam nos seus ouvidos;
quando está mais sossegado, cai sobre ele o ladrão.
22
Não está seguro de voltar da escuridão;
há quem o espie para lhe dar a morte.
23
Abandonado para alimento dos abutres,
ele sente que a escuridão da morte está perto.
24
A angústia e a aflição aterrorizam-no,
apertam-no como um exército pronto a atacar,
25
porque levantou a mão contra Deus,
desafiou o Todo-Poderoso.
26
Atirava-se de cabeça contra Deus,27
Pois protegeu-se com a sua gordura
e criou banhas sobre os rins.
28
Habitava em cidades abandonadas,
em casas desabitadas,
que estavam prestes a cair em ruínas.
29
Não será rico nem a sua riqueza se manterá;
os seus bens não chegam até ao sepulcro.
30
Ele não escapará à escuridão;
os seus rebentos, seca-os o calor
e arranca-os o vendaval soprado por Deus.
31
É para não se enganar, fiando-se em futilidades;32
Vai acabar antes do tempo
e não voltará mais a reverdecer.
33
Será como a videira que perde as uvas ainda verdes,
como oliveira que deixa cair a flor.
34
O conluio dos ímpios ficará estéril,
o fogo devorará as suas casas, cheias de suborno.
35
Trazem dentro de si a aflição e dão à luz a desgraça,
o que eles trazem no ventre é a desilusão.»
1
Job replicou então:2
«Já ouvi milhares de palavras iguais a essas.
Em vez de confortarem, vocês ainda afligem mais,
3
dizendo-me: “Quando acabam essas palavras vazias?
O que é que te obriga a replicar assim?”
4
Eu também era capaz de falar como vocês,
se estivessem no meu lugar.
Fazia contra vocês um brilhante discurso
e abanava a cabeça por compaixão.
5
Arranjava palavras para vos animar ,
sem precisar de fazer muitos discursos.
6
Mas se falo, não diminui a minha dor7
Realmente ele deixou-me esgotado,
os seus guardas amarraram-me .
8
Levantou-se como testemunha contra mim
e pronunciou contra mim falsas acusações.
9
Agarra-me e despedaça-me com furor,
rangendo os dentes contra mim.
Crava os olhos em mim, como se fosse meu inimigo.
10
Todos se juntam contra mim,11
Deus entregou-me aos malvados,
atirou-me para as mãos de criminosos.
12
Deus veio arrancar-me ao meu sossego,13
De todos os lados me atingem as setas,
com elas atravessa as minhas entranhas sem piedade
e derrama pelo chão o meu fel.
14
Caiu sobre mim como um guerreiro
e cobriu-me o corpo de feridas.
15
Eu vesti-me de luto e fiquei prostrado,16
Tenho a cara negra de tanto chorar
e a escuridão cobre os meus olhos.
17
E contudo, não cometi nenhuma injustiça
e a minha oração é sincera.
18
Ó terra não escondas o meu sangue19
Mas deve haver certamente, no céu,
uma testemunha que seja por mim,
alguém lá em cima que declare a meu favor ,
20
que interprete os meus pensamentos
diante de Deus, a quem imploro com lágrimas.
21
Que esse sirva de árbitro entre o homem e Deus,
como acontece em questões entre homens.
22
Pois os curtos anos passarão,
E para a senda sem retorno me encaminho.»
1
«Encontro-me sem alento,2
Estou rodeado de zombadores;
dia e noite vejo as suas provocações .
3
Dá-me, por favor, alguém como fiador diante de ti,
alguém que me segure pela mão e apoie.
4
Tu, que afastaste deles o entendimento,
não consintas que eles saiam vencedores.
5
Eles são como quem convida os amigos para um banquete
e deixa os seus filhos a morrer de fome .
6
Ando agora nas bocas do povo,7
Os meus olhos desfazem-se de dor,
as minhas forças desaparecem como sombra.
8
Por isso, os que são retos ficam admirados
e o inocente revolta-se contra o infiel.
9
Ficam mais convencidos de que são justos
e ainda mais acham que têm as mãos limpas.
10
Mas venham cá todos, por favor;
hão de ver que não vou encontrar entre vós nenhum sábio.
11
Os dias que eu sonhei já passaram12
Há quem chame dia à noite
e diga que a luz está próxima, no meio da escuridão.
13
Tudo o que espero é uma morada entre os mortos14
Poderei chamar mãe à podridão
e aos vermes, meu pai e meus irmãos.
15
Onde posso então encontrar esperança para mim?
Esperança para mim, quem é que a viu?
16
Também ela cairá nas garras da morte,
quando ambos descermos ao sepulcro.»
1
Bildad, natural de Chua, replicou, dizendo:2
«Até quando nos vais atirar palavras de armadilha?
Compreende as coisas e depois falamos!
3
Por que é que nos consideras como animais,
como animais desprezíveis para ti ?
4
Será que por ti a terra se vai despovoar
e os rochedos vão sair do seu lugar,
tu que, exaltado, te despedaças a ti mesmo?
5
Olha que a luz do homem mau há de apagar-se,
a chama do seu fogo deixará de brilhar.
6
Em sua casa, a luz vai escurecendo
e a lâmpada da sua vida extingue-se ;
7
os seus passos vigorosos vão-se encurtando
e é derrubado pelos seus próprios planos;
8
cai na armadilha por seu próprio pé,
ele mesmo caminha para o perigo.
9
O nó agarra-o pelo artelho,
os laços prendem-no com força.
10
Escondido na terra, há um laço para ele,
uma armadilha no caminho, para o apanhar.
11
Por todo o lado, os terrores o amedrontam e lhe travam o andar.
12
A sua riqueza transforma-se em fome13
A doença, filha primogénita da morte,
vai-lhe devorando pouco a pouco a pele e os membros.
14
Será arrancado ao sossego da sua casa
e conduzido ao rei dos terrores da morte .
15
Outro habitará na casa que foi sua
e espalhará enxofre sobre os seus bens .
16
As raízes que tinha hão de secar
e os ramos que produzira murcharão.
17
Na sua terra, esquecer-se-ão dele,18
Será atirado da luz para a escuridão
e desterrado para fora deste mundo.
19
A sua família ficará sem filhos nem descendentes,
da sua casa ninguém sobreviveu.
20
Ao saberem da sua sorte, a oriente e a ocidente,
todos ficarão admirados e dirão cheios de terror:
21
“Vejam como acaba a casa do malvado,
a habitação daquele que não reconhece Deus!”»
1
Job replicou então:2
«Até quando me vão atormentar
e ferir com as vossas palavras?
3
Já por dez vezes me insultaram.
Não têm vergonha de me ultrajar assim?
4
Se eu tivesse cometido algum erro,
isso diria respeito somente a mim.
5
Mas já que me vêm acusar
e discutir comigo para me envergonhar,
6
fiquem sabendo que foi Deus que me desorientou,
atirando sobre mim a sua rede.
7
Se eu gritar injustiça, não obtenho resposta;8
Ele tapou-me o caminho, não consigo passar;
e cobre de escuridão o meu caminho.
9
Tirou-me a minha coroa de honra,
levou-me a coroa que eu trazia na cabeça.
10
Deixou-me completamente arruinado e desfeito,
tirou-me a esperança, como quem arranca uma planta.
11
Voltou-se contra mim enfurecido
e tratou-me como um inimigo seu.
12
As suas tropas vêm em força,
abrem caminho contra mim
e fazem cerco à volta da minha casa.
13
Deus levou os meus familiares para longe de mim14
Os meus parentes abandonaram-me
e os meus conhecidos esqueceram-se de mim.
15
Os que moravam e serviam em minha casa
consideram-me como um estranho,
tornei-me para eles um desconhecido.
16
Chamei o meu empregado e ele não respondeu,
tive que lhe pedir por favor.
17
A minha mulher acha-me repugnante
e os meus próprios filhos não gostam de mim.
18
Até as crianças me desprezam;
levanto-me e dizem mal de mim.
19
Os que eram do meu grupo têm horror de mim,
aqueles de quem eu gostava voltaram-se contra mim.
20
Os meus ossos estão colados à pele
e os dentes saem descarnados das gengivas.
21
Intercedam por mim, meus amigos,22
Por que é que me perseguem, como Deus?
Não ficam satisfeitos sem me devorar?
23
Oxalá as minhas palavras pudessem ser escritas
e gravadas numa inscrição ou num livro!
24
Quem me dera que fossem gravadas a ferro e chumbo,
para ficarem eternamente marcadas na pedra!
25
Eu sei que o Deus da vida é o meu libertador26
E, depois de assim se ter desfeito a minha pele,
de novo vivo , poderei ver a Deus.
27
Hei de vê-lo a meu favor,
hei de vê-lo com os meus olhos, sem estranhar.
O meu coração anseia por que isso aconteça.
28
Podereis dizer: “Como é que o vamos perseguir?29
Mas temam a Deus que, com a espada do seu furor,
vos pode castigar pelos vossos crimes.
E ficarão a saber que Deus faz justiça.»
1
Sofar de Naamá interveio então dizendo:2
«As minhas reflexões levam-me a responder,
porque estou realmente impressionado.
3
Estive a ouvir a tua exposição brilhante
e vou procurar responder com espírito de compreensão.
4
Não sabes que é assim desde o princípio,
desde que a Humanidade existe neste mundo?
5
Que a satisfação dos maus não vai longe
e a felicidade dos ímpios é passageira?
6
Ainda que se levante orgulhoso até ao céu,7
há de desaparecer como esterco;
quem o procurar não saberá onde ele está.
8
Desaparece como um sonho que ninguém encontra
e foge como uma visão noturna .
9
Os olhos que o viam já não o veem mais,
nem sequer veem o lugar onde ele estava.
10
Ele é obrigado a restituir a sua riqueza,
os seus filhos têm de reembolsar os pobres.
11
Estava cheio de força e de juventude,
mas tudo isso jaz com ele no pó da terra.
12
A maldade agradava-lhe ao paladar,13
guardava-a bem, sem a deixar cair,
conservando-a colada ao céu da boca.
14
Mas no seu estômago, esse alimento
transforma-se em veneno de víbora.
15
As riquezas que engoliu tem de as vomitar,
Deus obriga-o a deitá-las fora.
16
Chupava veneno de víbora,
a mordidela da serpente dar-lhe-á a morte.
17
Não encontrará enchentes de azeite,18
Tem que devolver os seus lucros sem os consumir
e o fruto do seu trabalho sem chegar a saboreá-lo.
19
Explorou os pobres e deixou-os ao abandono,
apoderou-se de casas que não tinha construído.
20
Não teve um momento de sossego,
nada escapou à sua ambição.
21
Ninguém escapou à sua ganância;
por isso, o seu bem-estar não pode durar muito.
22
Depois de se encher de riquezas, sente-se angustiado
cai sobre ele a aflição .
23
Deus faz com que ele encha a barriga:
manda sobre ele a chama ardente da sua ira
e rega-o com a chuva do seu fogo abrasador!
24
Ao fugir das armas de ferro,
é atravessado por um arco de bronze .
25
Uma flecha sai-lhe pelas costas
e outra brilha a sair-lhe do fígado:
são os terrores da morte a cair sobre ele.
26
Espera-o a escuridão total,27
Os céus revelarão os seus crimes
e a terra levanta-se para o acusar.
28
Que a inundação arraste a sua casa,
no dia em que Deus deixar correr em torrentes
o furor do seu castigo.
29
Esta é a sorte que Deus destina aos maus,
o castigo que Deus determinou para eles.»
1
Job respondeu:2
«Ouçam atentamente as minhas palavras.
Seja essa a consolação que vocês me dão.
3
Tenham paciência, enquanto eu falo;
depois, podem ridicularizar-me, se quiserem.
4
A minha discussão não é com um simples homem.
Não tenho, portanto, razão para estar angustiado?
5
Prestem atenção ao meu caso
e ficarão mudos de espanto.
6
Só de me lembrar fico horrorizado
e o pavor aperta-me o coração.
7
Por que é que os maus podem continuar a viver8
A sua família está firme:
os pais ainda estão vivos
e os filhos vivem com eles.
9
As suas casas estão em paz e sem medo;
o castigo de Deus não pesa sobre eles.
10
O seu touro vai fecundando as vacas11
Deixam correr as suas crianças como cabritos,
os seus filhos saltam em liberdade.
12
Tocam tambores e liras,
divertem-se ao toque da flauta.
13
Passam a vida satisfeitos
e descem em paz ao sepulcro.
14
Eles dizem a Deus: “Deixa-nos em paz!15
Quem é o Todo-Poderoso, para sermos seus escravos?
Que ganhamos em bater à sua porta?”
16
Se a felicidade não está nas suas mãos
e se os seus pensamentos estão longe de Deus,
17
quantas vezes se apagou a lâmpada dos maus
e caiu sobre eles a desgraça?
Quantas vezes Deus os castigou com dureza?
18
Será que vão ser como palha levada pelo vento,
como palha arrastada pelo furacão?
19
Será que Deus vai deixar o castigo para os seus filhos?20
Cada um devia ver a sua ruína
e experimentar a ira do Todo-Poderoso.
21
Pois, uma vez terminada a sua vida,
o mau não se importa com a sorte dos filhos.
22
Será que ele pretende dar lições a Deus,23
Para alguns, tudo corre bem até à morte
e gozam uma vida calma e tranquila,
24
bem gordos de pernas e fortes de ossos.
25
Entretanto outros morrem cheios de amargura,
sem nunca se terem sentido felizes.
26
Uns e outros jazem na terra,
cobertos de vermes.
27
Conheço bem os vossos pensamentos:28
Sei que vão perguntar: “Onde está a casa dos tiranos,
o lugar onde moravam os criminosos?”
29
Já perguntaram às pessoas que viajam?30
Que os maus conseguem escapar à desgraça
e que, quando o desastre lhes bate à porta,
eles se encontram ausentes;
31
que ninguém lhes atira à cara o mal que fazem,
nem lhes dá o castigo que merecem?
32
Depois são sepultados em ricos mausoléus33
Uma multidão faz cortejo à sua frente
e outra igual segue atrás deles.
Assim até a terra se lhes torna leve.
34
E ainda pretendem confortar-me com ilusões!1
Elifaz de Teman replicou:2
«Será que um homem, mesmo muito forte ou sábio,
pode ser de alguma utilidade para Deus?
3
Que ganha o Todo-Poderoso com o facto de tu seres justo?
Que proveito lhe faz o teu bom comportamento ?
4
Será pela tua piedade que ele te repreende
e te chama a julgamento?
5
Não será antes que a tua maldade é muita
e os teus crimes não têm fim?
6
Exigias injustamente o que era dos outros,7
Não davas de beber a quem tinha sede
e negavas pão a quem tinha fome.
8
Sentias-te como alguém que é dono do país,
uma pessoa importante que domina sobre ele!
9
Mandaste embora as viúvas sem nada
e os órfãos ficaram de mãos vazias.
10
Por isso, estás rodeado de perigos
e o terror caiu repentinamente sobre ti.
11
A escuridão não te deixa ver nada;
é como uma inundação que te afoga.
12
Nós sabemos que Deus está no céu.13
Mas tu dirás: “Que é que Deus sabe disto?
Será capaz de fazer justiça para cá das nuvens?
14
As nuvens fazem obstáculo e não lhe permitem ver,
quando ele passeia pela abóbada celeste.”
15
Queres seguir o caminho escuro,16
que foram arrastados prematuramente,
quando a cheia lhes arrasou as fundações?
17
Eles dizem a Deus: “Deixa-nos em paz!18
Deus tinha-lhes enchido a casa de bens,
mas eles afastaram-no dos seus planos maldosos .
19
Os bons veem isso e ficam contentes,20
“Acabaram-se os seus tesouros,
a sua riqueza foi devorada pelo fogo.”
21
Põe-te de novo em paz com ele22
Aceita o ensinamento que ele te dá
e coloca as suas palavras no teu coração.
23
Se te voltares para o Todo-Poderoso, ficarás restabelecido,
mas deves afastar da tua casa a injustiça.
24
Atira o teu ouro para o lixo,
o teu ouro de Ofir para as pedras do ribeiro.
25
O Todo-Poderoso será para ti como ouro,
como uma enorme quantidade de prata.
26
Assim poderás levantar os olhos para ele27
Quando lhe pedires alguma coisa, ele escuta-te
e tu cumprirás as promessas que fizeste.
28
Tudo o que decidires acontecerá
e a luz brilhará sempre no teu caminho.
29
Se alguém decretar humilhações,
podes ordenar louvores,
pois Deus socorre os que são humilhados.
30
Ele te livrará, se estiveres inocente;
se tiveres de facto as mãos limpas.»
1
Job replicou:2
«Mais uma vez me lamento com amargura,
pois a sua mão castigou duramente o meu gemido.
3
Quem me dera saber onde encontrá-lo
e poder chegar até ao seu tribunal!
4
Apresentaria diante dele a minha causa;
eu mesmo discutiria as questões.
5
Seria capaz de compreender os argumentos
e perceberia as respostas que me desse.
6
Será que ele iria mandar um substituto,
para discutir comigo?
Não! Ele mesmo viria enfurecer-se contra mim .
7
Se eu pudesse discutir lealmente com ele,
conseguiria fazer vencer a minha causa.
8
Mas se vou para oriente, não sei onde ele está;9
Procuro-o para norte e não o encontro;
vou para sul e não o chego a ver.
10
Mas ele conhece cada um dos meus passos;
que me ponha à prova e verá que sou como ouro puro.
11
Segui sempre o rasto dos seus passos,
fui sempre pelo seu caminho, sem me desviar.
12
Nunca me afastei das suas ordens,
guardei no meu coração as suas palavras.
13
Mas quando ele decide uma coisa, ninguém o demove:14
Há de realizar o que decidiu para mim
e muitas outras coisas que tem no seu plano.
15
Por isso, tremo diante dele;
quando medito nisso, fico cheio de medo.
16
De facto, Deus tira-me a coragem,
o Todo-Poderoso faz-me tremer.
17
Por isso, desejaria que a escuridão me escondesse
e a noite me encobrisse da sua presença !»
1
«Por que é que Deus não marca datas,2
Há quem desloque os marcos das propriedades
e apascente como seus os rebanhos que roubaram.
3
Levam consigo o burro que pertence ao órfão
e apropriam-se do boi da viúva.
4
Empurram os pobres para fora do caminho,
os mais humildes do país têm de se esconder.
5
Como asnos selvagens, vão trabalhar para o deserto,
saem de manhã cedo para lugares ermos,
para arranjarem comida para os seus filhos.
6
Vão apanhar espigas nos campos alheios,7
De noite, não têm nada com que se cobrir,
nada para poderem evitar o frio.
8
Os aguaceiros das montanhas encharcam-nos
e eles agarram-se aos rochedos, como refúgio.
9
Pois há quem arranque o órfão dos braços da mãe10
Andam nus por não terem que vestir
e passam fome, carregando feixes de espigas.
11
Espremem o azeite com as mós
e pisam as uvas no lagar, mas morrem de sede.
12
Na cidade, os moribundos gemem13
Estes malfeitores fogem à luz do dia;14
O assassino levanta-se de madrugada
para matar o pobre e humilde;
de noite, ataca o ladrão.
15
O adúltero espreita ao crepúsculo,
dizendo: “Ninguém me vê!”
e vai para lugares escondidos.
16
Os que assaltam casas fazem-no pelo escuro;
de dia fecham-se em casa,
não querem nada com a luz.
17
Com a manhã é que eles se sentem às escuras,
de tão afeiçoados que estão aos horrores da noite.»
18
«O malvado é arrastado pelas águas;
as suas terras ficam amaldiçoadas
e não voltará a ir às suas vinhas.
19
O Sol derrete a neve
e a terra seca engole a água.
Assim o sepulcro engole os maus.
20
A mãe esquece-o, o verme devora-o;
nunca mais será lembrado;
e a maldade como uma planta será quebrada.
21
Ele tratou mal a mulher que ficou sem filhos22
Mas Deus, com a sua força, derriba-os;
quando ele aparece, deixam de estar seguros.
23
Deus deixa-os viver à vontade,
mas observa-os por toda a parte.
24
Ainda há pouco, eram grandes e já desapareceram;
como todos, foram derrubados e apanhados;
foram cortados como espigas.
25
Se não é assim, que alguém me desminta1
Bildad de Chua respondeu, dizendo:2
«Deus é soberano e temível,
lá do céu, faz reinar a paz.
3
Haverá maneira de contar os seus servidores?
E sobre quem é que não brilha a sua luz?
4
Um homem não consegue ter razão contra Deus,5
Até a Lua se apresenta sem luz
e as estrelas perdem brilho diante dele,
6
quanto mais o homem, criatura insignificante,
que não passa de um simples verme!»
1
Job respondeu, dizendo:2
«Que boa maneira de ajudar a quem está sem forças,
de socorrer quem não consegue erguer os braços!
3
Que maneira de aconselhar um ignorante,
instruindo-o com tanta habilidade!
4
Quem é que te inspirou essas palavras?
Em nome de quem estiveste a falar?
5
Na terra da escuridão, todos se contorcem,6
O abismo abre-se diante de Deus,
a terra da destruição aparece a descoberto.
7
Deus estendeu a abóbada celeste sobre o vazio
e suspendeu a terra sobre o nada.
8
Encerrou as águas dentro das nuvens,
sem que estas rebentem com o peso.
9
Encobriu com uma nuvem o seu trono,
para não ser visto por ninguém.
10
Traçou um círculo à volta do mar,11
Tremem as colunas que sustentam o céu ,
assustadas com o seu bramido.
12
Com o seu poder acalmou o mar,
com a sua inteligência desfez o caos .
13
Com o seu sopro varreu o céu,
com a sua mão matou a serpente veloz .
14
Mas isto é só uma parte das suas obras,1
E Job continuou o seu discurso, desta maneira:2
«Juro por Deus, o Todo-Poderoso,
que se nega a fazer-me justiça
e me enche de amargura!
3
Juro que, enquanto eu respirar
e Deus me conservar a vida,
4
da minha boca não sairão falsidades,
nem pronunciarei mentiras.
5
Longe de mim dar-vos razão!6
Manterei sempre com firmeza que tenho razão;
não há nada a reprovar em mim.
7
Que os meus adversários e inimigos8
«Que esperança pode ter o ímpio, ao morrer,
se Deus lhe corta o fio da vida?
9
Será que Deus vai ouvir as suas súplicas,
quando sobre ele recair a aflição?
10
Aliás, ele não sente gosto em se voltar para o Todo-Poderoso,
em invocar a Deus a todo o momento.
11
Vou mostrar-vos o poder de Deus,12
E se todos vocês são testemunhas disso,
por que continuam a repetir falsidades?
13
Esta é a paga que o criminoso recebe de Deus,14
Se os seus filhos crescerem, morrerão na guerra
e os seus descendentes não terão com que matar a fome.
15
A morte sepultará os seus sobreviventes
e as suas viúvas nem sequer chorarão por eles.
16
Se tiver amontoado prata como terra
e juntado roupas como pó,
17
essas roupas serão usadas pelos bons e honestos
e a prata será destinada aos que não tiverem culpas.
18
A casa que ele construir será como teia de aranha,
como uma cabana feita para guardar um campo.
19
Deitou-se rico, mas deixará de o ser:
ao abrir os olhos, já não tem nada .
20
Os terrores afogá-lo-ão como a enchente;
numa noite, arrebata-o a tempestade.
21
O vento leste leva-o consigo,
o vendaval arranca-o do seu lugar;
22
Deus empurra-o sem piedade
e ele tenta desesperadamente escapar-se.
23
Com assobios e bofetadas,
obriga-o a abandonar o seu lugar .»
1
«Sabemos que há minas de onde se tira a prata2
O ferro é retirado da terra
e da pedra se funde o bronze.
3
O homem acaba com as trevas4
Abre galerias longe dos sítios habitados,
longe de todos, por onde ainda ninguém passou,
balanceando-se suspenso de uma corda.
5
Por cima é terra que produz o pão6
Nos seus rochedos há safiras
e na terra encontra-se ouro,
7
por caminhos que nem o abutre conhece,
nem os olhos do falcão já descobriram.
8
O leão nunca por lá passou,
o rei dos animais nem lá pôs os pés.
9
Até no granito ele meteu a mão10
Abre galerias nas rochas,
de olhar atento para qualquer preciosidade.
11
Explora as nascentes dos rios
e traz à luz do dia as riquezas lá escondidas.
12
Mas a sabedoria, donde é que ela vem?13
Não se encontra neste mundo,
e nenhum ser humano conhece o seu preço.
14
O abismo diz: “Não está aqui!”
e o mar profundo repete: “Aqui também não está!”
15
Não se vende a troco de ouro,16
Não se adquire com ouro puro de Ofir
nem com pedras preciosas de cornalina e safira.
17
Não se comparam com ela nem o ouro nem o vidro
nem se dão por ela vasos de ouro fino.
18
De cristal e corais nem se fale;
a sabedoria vale mais que as pérolas.
19
Não se compara com ela o topázio da Etiópia,
nem se adquire pelo ouro mais puro.
20
Pois, donde é que pode vir a sabedoria?21
Está escondida, longe do olhar dos seres vivos,
onde nem as aves do céu a podem descobrir.
22
A morte e o mundo dos mortos declaram:
“Só a conhecemos de ouvido.”
23
Deus compreende os caminhos da sabedoria;
É ele que conhece a sua origem.
24
Pois o seu olhar atinge até ao extremo da terra
e observa tudo aquilo que há no mundo.
25
Quando atribuiu ao vento o seu peso próprio26
quando fixou as leis que a chuva devia seguir
e marcou o caminho às trovoadas,
27
nessa altura, ele viu a sabedoria e apreciou-a,
examinou-a e aprovou-a.
28
Depois disse aos homens:
“A sabedoria é respeitar a Deus,
a inteligência consiste em evitar o mal .”»
1
Job retomou o seu discurso, dizendo:2
«Quem me dera ser como eu era dantes,
nos tempos em que Deus me protegia;
3
quando a sua luz brilhava sobre mim
e eu podia caminhar até na escuridão.
4
Estava então na minha juventude,5
O Deus todo-poderoso estava ainda comigo
e eu estava rodeado dos meus filhos.
6
Lavava os meus pés em creme e bálsamo,
rios de azeite corriam sobre as minhas pernas.
7
Quando saía à praça pública da cidade,8
os novos, ao verem-me, retiravam-se
e os velhos punham-se de pé;
9
os grandes guardavam silêncio,
pondo a mão a tapar a boca.
10
A voz dos notáveis emudecia
e a língua colava-se-lhes ao céu da boca.
11
E quem ouvia isto felicitava-me,12
Pois eu livrava o pobre, quando ele pedia socorro,
bem como o órfão e todos os necessitados.
13
Os que antes estavam à morte felicitavam-me
e o coração da viúva enchia-se de alegria.
14
A retidão era a roupa com que me vestia15
Pois eu servia de olhos para o cego
e de pernas para o coxo.
16
Era como um pai para os órfãos
e resolvia favoravelmente
até as questões de desconhecidos.
17
Quebrei os queixos aos malvados,
para que a presa escapasse dos seus dentes.
18
E pensei: “Talvez, como a fénix, eu morra no meu ninho,19
As minhas raízes chegam até às águas
e o orvalho poisa nos meus ramos.
20
A minha vida renova-se dentro de mim
e o meu arco ganha força na minha mão.”
21
Eles ouviam-me até ao fim22
Depois de eu falar, nada acrescentavam;
as minhas palavras penetravam no seu entendimento.
23
Esperavam as minhas palavras, bebendo-as com avidez,
tal como a terra absorve as primeiras chuvas.
24
Quando eu sorria para eles, nem acreditavam
e não desviavam o olhar do meu rosto alegre.
25
Eu escolhia o caminho e punha-me na frente deles
como um rei que mora com os seus soldados
e os reconforta quando estão tristes .»
1
«Mas agora riem-se de mim,2
Que me interessa a força que eles têm?
Já perderam todo o vigor.
3
Estavam esgotados por fomes e privações,
obrigados a roer o que havia pelas estepes,
4
apanhando malvas nos matagais
e raízes secas para comerem.
5
Os habitantes das povoações expulsam-nos,6
Têm de ir viver nas encostas perigosas,
em buracos na terra e nos rochedos.
7
Ouvem-se rugir entre os matagais,
aninhados debaixo dos arbustos.
8
São uma multidão de insensatos, gente sem nome,
expulsos do país à bordoada.
9
Zombam de mim nas suas canções,10
Têm-me horror e afastam-se de mim
e não param de me cuspir na cara.
11
Eles espiam à minha porta e humilham-me,12
Levantam-se contra mim de todos os lados
e desenfreados correm para mim,
trazendo consigo a desgraça.
13
Barram-me o caminho e fazem-me cair;
não consigo escapar-me deles.
14
Passam através de uma enorme brecha
e vêm ter comigo entre os escombros.
15
O terror cai sobre mim
e, como um vendaval, ameaça a minha prosperidade;
o meu bem-estar desapareceu como uma nuvem.
16
Agora só me resta dar largas aos meus queixumes:17
De noite, a dor trespassa-me os ossos,
os que me roem não conhecem descanso.
18
Ele agarra-me com violência pela roupa
e segura-me pelo colarinho da camisa.
19
Atira comigo para a lama
e fico misturado com o barro e o pó.
20
Gritei por ti e não me respondeste,21
Tornaste-te o meu carrasco
e atacaste-me com a tua mão pesada.
22
Fizeste com que eu fosse levado pelo vento
e afastaste o sucesso para longe de mim.
23
Bem sei que me farás regressar à morte,
morada onde todos os seres se vão encontrar.
24
Não é quando tudo está perdido
que se vai estender a mão a alguém,
nem depois do desastre que se grita por socorro.
25
Não será verdade que chorei com o oprimido?26
Ansiei pelo bem e veio-me o mal,
esperei pela luz e veio a escuridão.
27
Ardo em febre que não baixa,
dias de aflição aproximam-se de mim.
28
Caminho sombrio e sem Sol;
e vou à assembleia do povo pedir auxílio.
29
Tornei-me companheiro dos chacais,
fui viver com as avestruzes no deserto.
30
A minha pele está mais negra que um caldeirão,
os meus ossos ardem em febre.
31
A minha lira está de luto
e a minha flauta só acompanha quem chora.»
1
«Fiz um pacto com os meus olhos2
Caso contrário, que recompensa poderia eu esperar
do Deus todo-poderoso que habita nos céus?
3
Não seria a desgraça devida a um criminoso,
o desastre merecido por um malfeitor?
4
Será que Deus não vê o meu comportamento,
não observa todos os meus passos?
5
Eu não fui atrás de nenhum ídolo,
nem corri atrás de coisas falsas.
6
Deus pode pesar-me numa balança rigorosa
e verificará que estou inocente!
7
Se os meus pés se desviaram do caminho,
se os meus desejos foram atrás de tudo o que vejo
e se tenho as mãos sujas por qualquer crime,
8
que outros comam aquilo que eu semeei
e destruam os meus rebentos.
9
Se me deixei seduzir por uma mulher10
que a minha mulher sirva outro homem
e que outros disponham dela à sua vontade.
11
Pois, nesse caso, eu teria cometido indecências
e crimes dignos de castigo.
12
Esses crimes seriam como um fogo,
que me levaria à destruição
e consumiria todos os meus bens.
13
Se não reconheci os direitos do meu servo14
que poderei fazer, quando Deus me acusar?
Que lhe responderei, quando me pedir contas disso?
15
Quem me criou a mim criou-o a ele:
o Deus único formou-nos a ambos,
no ventre das nossas mães.
16
Recusei por acaso algum pedido aos pobres17
ou comi sozinho um bocado de pão,
sem dar também dele aos órfãos?
18
Desde a infância criei os órfãos como pai,
desde o seu nascimento sou eu quem os guia.
19
Terei eu encontrado algum vagabundo sem roupa,20
sem que o seu corpo me agradecesse
a roupa quente feita de lã das minhas ovelhas?
21
Se levantei a mão contra um órfão,
para obter do tribunal uma sentença a meu favor,
22
que a minha omoplata me caia ao chão
e se quebre o osso do meu braço.
23
Tenho muito medo do castigo de Deus;
quando ele levanta a mão, não consigo resistir.
24
Não pus a minha confiança no ouro25
Não me envaideci da minha fortuna,
de ter conseguido uma grande riqueza.
26
Não me voltei para o Sol, no seu esplendor,
nem para a Lua com o seu andar majestoso,
27
deixando-me seduzir no íntimo do coração
e mandando-lhes um beijo com a mão.
28
Também isso seria um verdadeiro crime,
pois estaria a renegar o Deus que está no céu.
29
Não me alegrei com a desgraça do meu inimigo,30
nem sequer cheguei ao ponto de o amaldiçoar,
pedindo a Deus que lhe tirasse a vida.
31
Não deixei que os homens de minha casa dissessem:32
Nenhum forasteiro teve que dormir na rua,
pois a minha porta estava aberta para os peregrinos.
33
Como os outros , não escondi de ti os meus pecados,34
Não tive medo da gritaria da multidão,
nem o desprezo dos parentes me amedrontou,
fazendo com que me calasse e não fosse ao tribunal.
35
Quem dera que alguém me ouvisse!36
Sou capaz de o transportar aos ombros
e de fazer dele uma coroa para mim.
37
Havia de lhe contar todos os meus passos
e aproximar-me dele como um príncipe .
38
Se fiz com que a minha terra se queixasse39
se comi o seu produto sem o comprar,
deixando os seus donos a morrer de fome,
40
que a minha terra dê espinhos e não trigo
e, em vez de cevada, produza ervas ruins.»
1
Aqueles três homens, Elifaz, Bildad e Sofar pararam de discutir com Job, vendo que ele estava tão convencido de que tinha razão.2
Eliú, filho de Baraquel, da tribo de Buz , do clã de Rame, ficou irritado com tudo isto e sobretudo com Job, por pretender ter razão contra Deus.3 Ficou irritado igualmente com os seus três companheiros, por não terem encontrado argumentos para convencer Job de que não tinha razão.
4 Enquanto Job e os outros foram falando, Eliú ficou na expectativa, porque eles eram bastante mais velhos do que ele.
5
Mas ao ver que os três homens não arranjavam uma resposta válida, Eliú ficou irritado6 e decidiu ele mesmo dar a resposta:
«Eu sou ainda jovem7
Pensava comigo: “Quem tem idade é que deve falar,
quem viveu muitos anos pode ensinar a sabedoria.”
8
Mas a sabedoria e inteligência que o homem tem9
Nem sempre os idosos são sábios;
os velhos não sabem sempre o que é justo.
10
Por isso, te peço que me escutes
que eu quero dar também a minha opinião.
11
Estive à espera, enquanto vocês falavam,12
Escutei-vos com muita atenção
e nenhum fez a Job uma crítica exata
nem deu resposta às suas afirmações.
13
E não me venham dizer: “Descobrimos a sabedoria!”14
Por isso, não vou dirigir argumentos contra ele,
não vou responder-lhe como vocês fizeram.
15
Ficaram desconcertados, sem nada para responder,16
Terei ainda de esperar, quando eles não falam
e ficam parados sem responder?
17
Agora, é a minha vez de falar;
quero dar também a minha opinião.
18
Tenho as palavras a ferver dentro de mim
e já não consigo contê-las.
19
Como vinho novo em fermentação
colocado em odres novos,
também eu estou quase a rebentar.
20
Tenho que falar para poder desabafar,
vou tomar a palavra e responder.
21
Não tomarei partido por nenhum de vocês
nem vou procurar agradar a ninguém.
22
Pois nem eu sei lisonjear
nem Deus me deixaria sem castigo.»
1
«E tu, Job, escuta o que tenho a dizer-te,2
Repara que agora vou eu falar,
e tenho as palavras a sair-me da boca.
3
Vou falar com toda a sinceridade,
vou dizer com a maior franqueza o que penso.
4
Foi o Deus todo-poderoso que me criou
e me deu o sopro da vida.
5
Se conseguires, responde-me,6
Tu e eu somos iguais diante de Deus :
também eu fui formado do barro.
7
Por isso, não te vou assustar
nem vou ser demasiado duro contigo.
8
Tu fizeste aqui, na minha presença,9
“Eu estou inocente e sem pecado;
estou sem culpa, não cometi nenhum crime.
10
Mas ele busca pretextos contra mim
e trata-me como se fosse seu inimigo;
11
prende-me os pés com cadeias
e observa todos os meus passos.”
12
Porém tenho que te responder
que nisso não tens razão,
pois Deus é demasiado grande para um homem.
13
Por que é que o acusas
de nunca responder ao que tu lhe perguntas ?
14
Deus tem várias maneiras de falar
e nem sempre nos apercebemos disso.
15
Às vezes fala durante a noite
por meio de sonhos e visões,
enquanto o sono domina as pessoas
e elas dormem profundamente no seu leito .
16
Então abre os ouvidos aos homens
e mete-lhes medo com os seus avisos ,
17
para afastar os homens da maldade
e evitar que eles se encham de orgulho.
18
E assim os livra da morte,
de se perderem no abismo sem fundo.
19
Também corrige os homens, fazendo-os cair doentes,20
O doente sente nojo da comida,
mesmo dos manjares mais deliciosos.
21
Fica tão magro que mal se vê,
deixando à vista até os ossos mais escondidos.
22
Está mesmo com um pé para a cova;
a sua vida já faz parte do mundo dos mortos.
23
Mas se tiver um anjo a seu favor,24
e interceda por ele dizendo:
“Livra-o de descer ao sepulcro;
já consegui resgate para ele.”
25
O seu corpo recupera a juventude
e volta aos dias da sua meninice.
26
Dirige-se a Deus e ele acolhe o seu pedido;27
Cantando, proclama diante de todos:
“Eu pequei e transgredi o direito,
mas ele não me deu o castigo merecido.
28
Livrou-me de cair no abismo
e posso continuar a ver a luz.”
29
Tudo isto Deus faz pelos homens,30
para os arrancar do abismo
e fazer com que continuem a ver a luz.
31
Ó Job, escuta-me com atenção;32
Se tiveres algo a responder, fala;
com todo o gosto te darei razão.
33
Se não tiveres nada, ouve-me em silêncio
que eu ensino-te a sabedoria.»
1
Eliú continuou a falar:2
«Escutem as minhas palavras, ó sábios;
ouçam-me, ó gente de experiência.
3
Pois o ouvido distingue as palavras,
como o paladar aprecia o sabor das comidas .
4
Vamos então procurar ver o que é justo,
para ficarmos a saber o que é bom.
5
Job declara: “Estou inocente;6
Passo por mentiroso, mesmo tendo razão;
sou atingido pelas suas flechas,
sem ter culpa nenhuma.”
7
Haverá alguém semelhante a Job?8
junta-se aos malfeitores,
faz companhia aos criminosos,
9
ao dizer: “O homem não ganha nada
em estar de bem com Deus.”
10
Escutem-me então, gente insensata;11
Deus paga ao homem conforme o que ele faz
e retribui-lhe conforme o seu comportamento .
12
A verdade é que Deus não pratica o mal13
Quem é que lhe entregou a terra?
Quem pôs o mundo inteiro ao seu cuidado?
14
Se algum dia ele decidisse
deixar de dar a outros o seu sopro de vida,
15
toda a Humanidade morreria imediatamente,
e os mortais voltariam a ser pó.
16
Se tens inteligência, ouve isto,17
“Aquele que odeia a justiça é que vai decidir?
Vais condenar aquele que é infinitamente justo?
18
Quem é capaz de chamar canalha ao rei
e criminosos aos grandes ?”
19
Mas Deus não dá preferência aos poderosos,
nem favorece mais o rico do que o pobre,
pois ambos foram criados por ele.
20
De repente, a meio da noite, a morte apanha-os;
os grandes são derrubados e desaparecem,
os poderosos são afastados sem esforço.
21
Pois Deus observa o comportamento dos homens
e vê cada um dos seus passos.
22
Os maus não encontram sombra nem escuridão,
para nelas se poderem esconder.
23
Deus não marca uma data, para que o homem24
Desfaz os fortes sem procurar muito
e coloca outros no seu lugar.
25
Porque Deus conhece o que eles fazem;
numa noite ele os derruba e destrói.
26
Açoita-os como se fossem criminosos,
em público, à vista de todos.
27
Pois eles viraram-lhe as costas
e não procuraram seguir os seus caminhos;
28
obrigaram o pobre a pedir a ajuda de Deus
e ele acolheu o grito dos oprimidos.
29
Porém se Deus ficasse parado, quem iria julgar?30
para fazer com que o ímpio
deixe de dominar o povo
e de o oprimir para seu proveito?
31
Suponhamos que ele tinha dito a Deus:
“Estou arrependido; não volto a praticar o mal.
32
Ensina-me tu, para que eu veja claro;
e se cometi algum erro, não volto a fazê-lo.”
33
Será que quando discordas,
ele dá o castigo segundo a tua opinião?
Tu é que tens de responder e não eu.
Diz lá então o que pensas!
34
Os homens sensatos e os sábios, que me escutam,35
“Job não sabe o que está a dizer,
as suas palavras não têm sentido.
36
Job devia ser posto à prova até ao fim ,
porque as suas respostas são de um homem sem fé.
37
Aos seus pecados acrescentou a revolta;
e pretende lançar a dúvida nos nossos espíritos,
multiplicando ataques contra Deus.”»
1
Eliú continuou:2
«Achas razoável dizeres:
“Eu tenho razão contra Deus”
3
e acrescentares ainda: “Que interesse tem para ti
e que mal me vem a mim do meu pecado ?”
4
Pois eu quero dar-te a resposta,5
Olha com atenção para os céus;
vê como as nuvens estão longe de ti.
6
Se cometeste pecados, nenhum mal fazes a Deus;
se multiplicas os teus crimes, nenhum prejuízo lhe causas.
7
Se foste honesto, o que é que lhe podes dar?
Ou o que pode ele obter da tua mão?
8
Só a um homem como tu afeta a tua maldade;
só a ti, mortal, afeta a tua justiça .
9
Sob o peso da opressão, as pessoas lamentam-se10
Mas ninguém pergunta: “Onde está Deus, que me criou,
que, durante a noite, nos restaura as forças,
11
que nos ensina por meio dos animais do campo
e nos dá sabedoria pelas aves do céu ?”
12
Alguns gritam e ele não responde,
diante da insolência dos maus.
13
Pois Deus não dá ouvidos a quem não merece,
o Todo-Poderoso não faz caso deles.
14
Tu dizes que não o consegues ver;15
Será que Deus não castiga com furor
nem presta especial atenção às maldades?
16
Job só diz coisas sem sentido;
fala muito, mas sem saber o que diz.»
1
Eliú continuou:2
«Tem paciência, que eu tenho mais a dizer-te,
tenho mais coisas a dizer em favor de Deus.
3
Levantarei a voz em favor do Deus distante,
mostrando que o meu Criador é que tem razão.
4
De facto, as minhas palavras não têm mentira;
é um homem honesto que está diante de ti.
5
Deus é poderoso e forte
e despreza os que estão seguros da sua força.
6
Não poupa a vida do criminoso,
mas faz justiça aos oprimidos.
7
Não afasta o olhar dos que são justos;
fá-los sentar no trono como reis
e dá-lhes grandeza para sempre.
8
Se eles se encontram presos
e a aflição os atormenta,
9
é para lhes mostrar as suas ações,
o orgulho que os levou à revolta.
10
Faz com que eles ouçam com atenção os seus avisos
e convida-os a renunciarem à maldade.
11
Se fizerem caso e se submeterem,12
Se o não fizerem, caem no abismo
e morrerão sem sequer dar por isso.
13
Os malvados, quando Deus os agarra,
ficam enfurecidos e não pedem socorro.
14
Morrem em plena juventude,
como jovens entregues à prostituição .
15
Mas Deus salva o oprimido da opressão,16
Também a ti ele te evitou a aflição,
fazendo-te viver em lugar espaçoso
e a tua mesa transbordar de abundância .
17
Mas mereceste ser condenado como criminoso,
com uma sentença que é perfeitamente justa .
18
Que a irritação te não leve a excessos,
nem te iludas com a ideia de subornar a Deus.
19
Pensas que os teus protestos e esforços
são capazes de atrapalhar o Deus forte?
20
Não suspires para que a noite
venha tirar os povos do seu lugar.
21
Guarda-te de te voltares para o mal,
pois foi por isso que te sobreveio a aflição.»
22
«Vê como Deus é sublime no seu poder!
Que mestre se lhe pode comparar?
23
Quem se atreve a dar-lhe regras de conduta?
Quem lhe vai dizer: “Fizeste mal”?
24
Lembra-te de celebrar as suas obras,25
Toda a Humanidade o viu;
toda a gente olhava desde longe.
26
Deus é demasiado grande para o compreendermos;27
Ele vai soltando as gotas de água,
que caem como chuva do seu reservatório,
28
escorrendo lentamente das nuvens
ou caindo em bátegas sobre a terra.
29
Quem pode compreender a marcha das nuvens,30
Sobre as nuvens, Deus faz brilhar o relâmpago,
que põe a descoberto até o fundo dos mares.
31
É com a chuva que ele alimenta os povos
e lhes dá comida em abundância.
32
Nas suas mãos ele esconde os raios
e ele mesmo lhes marca o alvo a atingir.
33
O trovão anuncia a sua chegada
e o rebanho pressente a tempestade.»
1
«Diante disto, o meu coração estremece2
Escutem o ressoar da voz de Deus,
que fala no ribombar do trovão.
3
Os relâmpagos brilham pela imensidão dos céus
e sobre as extremidades da terra.
4
Depois ressoa o trovão,5
Deus faz ecoar a sua voz prodigiosa
e faz maravilhas incompreensíveis.
6
Ordena à neve e à chuva que caiam sobre a terra
e a chuva cai em fortes aguaceiros.
7
Desce sobre a terra ,
para que os homens reconheçam as obras de Deus.
8
Os animais entram nos seus esconderijos
e ficam nas suas tocas.
9
Do seu reservatório sai o furacão,
dos seus armazéns vem a geada.
10
Ao sopro de Deus forma-se o gelo
e a superfície das águas fica congelada.
11
Do céu, ele espalha a sua luz,12
Fá-los mudar de direção como quer
e fazem tudo o que ele ordena
em qualquer parte do Universo.
13
Seja para castigar ou para favorecer e perdoar,
faz com que atinjam o objetivo.
14
Ouve bem isto, Job,15
Sabes como é que Deus comanda tudo isto
e faz aparecer o relâmpago nas nuvens?
16
Sabes alguma coisa sobre o equilíbrio das nuvens,
maravilha consumada de sabedoria,
17
tu que te sentes incomodado com o calor,
quando sopra o vento suão?
18
Serás capaz, como ele, de estender o firmamento,
firme e liso como um espelho de cristal?
19
Diz-nos como lhe havemos de falar,20
Será que vão dizer a Deus que eu vou falar?
Alguém se apresenta para ser destroçado?
21
Será que não conseguem ver a luz,
brilhando como brilha através das nuvens,
quando o vento sopra e as varre?
22
Do norte vêm resplendores de luz dourada;
é Deus rodeado de terrível esplendor.
23
Não conseguimos atingir o Todo-Poderoso;
o seu poder é imenso,
infinita a sua justiça e retidão;
ninguém o consegue ver .
24
Por isso, os homens o devem respeitar,
pois ele não olha para os que se dizem sábios.»
1
Do meio da tempestade, o SENHOR dirigiu-se a Job nestes termos:2
«Quem é que vem denegrir os meus planos,
falando sem saber o que diz?
3
Se tens coragem, prepara-te,
para responderes às perguntas que te vou fazer.
4
Já que pretendes saber a verdade, diz-me:5
Sabes quem fixou as suas dimensões,
quem a mediu com uma fita métrica?
6
Onde estão assentes os seus pilares?
Quem assentou a sua primeira pedra,
7
enquanto as estrelas da manhã cantavam
e gritavam de alegria todos os seres celestes ?
8
Quem fez jorrar o mar das duas comportas,9
quando lhe dei as nuvens para se vestir
e a neblina para se cobrir?
10
Eu impus-lhe um limite,
fechei-o com comportas e ferrolhos
11
e disse-lhe: “Daqui para diante não passas;
aqui têm de parar até as tuas ondas mais fortes .”
12
Alguma vez deste ordens ao dia13
para abarcar com as suas asas toda a terra
e afastar todos os criminosos?
14
A terra muda de forma como a argila com o selo,
muda como roupa tingida doutra cor.
15
A luz afugenta os criminosos
e os que levantavam o braço
ficam sem força para dar o golpe.
16
Já foste às nascentes do mar17
Foram-te reveladas as portas da morte?
Viste tu a entrada para aquele reino de sombras?
18
Consegues perceber tudo o que há na terra?
Explica lá, uma vez que sabes tudo!
19
Qual o caminho para o lugar onde habita a luz?20
Serias capaz de ir buscá-la à sua terra,
tu que sabes o caminho para sua casa?
21
Deves sabê-lo, pois decerto já tinhas nascido
e, pelos vistos, tens muitos anos de vida!
22
Já foste aos reservatórios da neve?23
que eu tenho guardados para uma hora de perigo,
para o dia de combate e de guerra ?
24
De que maneira se divide o relâmpago
e sopra sobre a terra o vento leste?
25
Quem abriu passagem para a chuva,26
Para fazer chover nas áreas desabitadas,
nas estepes onde ninguém vive,
27
para cobrir de fartura o deserto árido
e fazer brotar erva na terra seca.
28
Qual é o pai que criou a chuva
e fez nascer as gotas de orvalho?
29
Qual é a mãe que deu à luz
o gelo e a geada que cai do céu?
30
Com eles, a água torna-se dura como pedra
e fecha-se a superfície das águas profundas.
31
És capaz de atar as cordas que seguram32
Consegues fazer aparecer as constelações,
cada uma na sua altura própria,
e guiar a Ursa Maior com os seus filhos?
33
Conheces as leis que governam o céu
e a influência que ele exerce sobre a terra?
34
Bastará dares uma ordem às nuvens,
para que a chuva caia sobre ti em abundância?
35
És tu que mandas embora os relâmpagos?
É a ti que eles respondem: “Às tuas ordens!”?
36
Quem deu ao íbis sabedoria37
Quem tem capacidade para contar as nuvens
e é capaz de entornar os cântaros do céu,
38
quando a terra se torna dura como ferro
e os torrões se amontoam?
39
És tu que caças a presa para a leoa40
acocorados no fundo das suas tocas,
espreitando nos seus esconderijos?
41
Quem arranja a comida para o corvo,
quando os seus filhotes, mortos de fome,
gritam a Deus por socorro?»
1
«Sabes em que época nascem as crias das corças,2
Contaste os meses que elas têm de gravidez,
para saberes em que altura vão dar à luz?
3
Agacham-se para fazer sair os seus filhotes,
colocam no chão as suas crias.
4
Os filhos crescem e tornam-se fortes;
vão-se embora e não voltam mais.
5
Quem pôs o burro selvagem em liberdade6
Dei-lhe por morada o deserto
e por habitat a terra salgada.
7
Ele ri-se do barulho das cidades
e não tem de ouvir os berros de um dono.
8
Percorre os montes em busca de pasto,
procurando erva em qualquer parte.
9
Achas que o búfalo aceitará estar ao teu serviço10
És capaz de o atrelar ao arado para lavrar
ou de o usar para gradar as tuas terras de cultivo?
11
Será que, por ele ter muita força, vais confiar nele
e entregar-lhe os teus trabalhos para fazer?
12
Fias-te nele para recolher as tuas colheitas
e armazenar as tuas eiras de trigo?
13
A avestruz bate as asas com orgulho,14
Põe os ovos no chão
e deixa-os a chocar sobre a areia,
15
esquecendo-se de que os podem esmagar,
que qualquer fera os pode pisar.
16
Trata os seus filhotes como se não fossem seus,
sem medo de perder o resultado dos seus trabalhos.
17
Ela não recebeu de Deus sabedoria,
não foi dotada com inteligência.
18
Mas quando ela se levanta e se põe a correr,
ri-se da velocidade do cavalo e do cavaleiro.
19
És tu que dás a força ao cavalo20
És tu que o fazes saltar como um gafanhoto
e relinchar tão forte que mete medo?
21
Esgaravata no chão com violência,
satisfeito da sua força,
e atira-se em direção ao inimigo.
22
Despreza o medo e nada teme,
nem a espada o faz recuar.
23
À sua volta, vibram as setas na aljava
e brilham as lanças e os dardos.
24
Com ímpeto e estrondo, ele atravessa o campo,
sem fazer caso do toque do clarim.
25
Ao toque do clarim ele relincha,
porque sente de longe o cheiro do combate,
as vozes de comando e a gritaria.
26
É pela tua inteligência que o falcão voa,27
É por ordem tua que a águia escolhe as alturas,
para lá fazer o seu ninho?
28
O seu habitat e refúgio é sobre os rochedos,
sobre os penhascos, a sua fortaleza.
29
De lá, ela espreita a sua presa,
os seus olhos descobrem-na desde longe.
30
Os seus filhotes gostam das presas a sangrar;
onde quer que se encontrem cadáveres
lá estão as águias.»
1
O SENHOR interpelou Job, dizendo:2
«Será que aquele que contestava a Deus
vai agora responder?
Aquele que critica o Todo-Poderoso
tem algo que replicar?»
3
Então Job respondeu ao SENHOR:4
«Sinto-me demasiado pequeno!
Que hei de responder-te?
Fico calado, sem abrir a boca!
5
Já antes falei, não quero dizer mais nada,
nem acrescentar coisa alguma ao que já disse.»
6
Do meio da tempestade, o SENHOR voltou a interpelar Job, dizendo:
7
«Se és homem, prepara-te
para responder ao que tenho a perguntar-te.
8
Atreves-te a negar-me razão,
a condenares-me, para te declarares inocente?
9
Porventura pretendes ter tanto poder como Deus
e fazer ecoar o trovão como ele faz?
10
Cobre-te então de glória e grandeza;
envolve-te de esplendor e majestade,
11
dá largas ao teu furor,
deita por terra os orgulhosos com um só olhar;
12
humilha com um olhar os arrogantes;
esmaga imediatamente os criminosos;
13
enterra-os todos de uma vez,
ligados com faixas e presos no sepulcro.
14
Eu próprio te prestaria homenagem,
por teres alcançado o triunfo pela tua mão.
15
Repara no monstro Beemot !16
Mas repara na força das suas pernas,
no vigor da sua barriga musculosa!
17
A sua cauda é forte como um tronco de cedro
e as suas coxas são ligadas por fortes tendões.
18
Os seus ossos são tubos de bronze
e as suas costelas são como barras de ferro.
19
É o maior dos seres que Deus criou com o seu poder
e só o criador pode aproximar dele a espada .
20
Ao levarem-lhe o pasto das montanhas,
os animais selvagens brincam junto dele.
21
Vai deitar-se debaixo dos lótus,
esconde-se entre os canaviais do pântano.
22
Os lótus oferecem-lhe a sua sombra
e os salgueiros do rio encobrem-no.
23
Se a corrente for forte, não se atrapalha,
mesmo com a água pela boca, não se incomoda.
24
Quem poderá apanhá-lo de frente
e atravessar-lhe o focinho com um gancho?
25
És capaz de pescar o crocodilo com um anzol26
És capaz de lhe passar um junco pelo nariz
ou atravessar-lhe a mandíbula com um gancho?
27
Achas que ele te vai pedir por favor
ou falar com todas as delicadezas?
28
Pensas que vai fazer algum pacto contigo,
para aceitar ser teu escravo até à morte?
29
Vais brincar com ele como se fosse um passarinho
ou atá-lo com um fio para distrair as tuas filhas?
30
Será que os pescadores vão negociar com ele
e dividi-lo entre vários negociantes?
31
Consegues furar-lhe a pele com harpões
ou a sua cabeça com dardos de pescador?
32
Põe a mão em cima dele;
hás de lembrar-te desse combate,
sem vontade de o repetir.»
1
«Esperar vencê-lo é um engano;2
Quem comete a loucura de o ir acordar
ou vai colocar-se diante dele?
3
Quem é que já o enfrentou e ficou ileso?
Absolutamente ninguém !
4
Não quero deixar de referir os seus membros
e a força incomparável que lhe foi dada.
5
Quem consegue abrir a sua casca exterior?
Quem se atreve a entrar pelas suas mandíbulas?
6
Quem o obriga a abrir a boca
cercada de dentes terríveis?
7
Uma fiada de escudos forma o seu dorso,
fortemente ligados entre si,
8
tão fortemente unidos uns aos outros
que nem o vento passa entre eles.
9
Cada um deles está agarrado ao seguinte,
tão presos que ninguém os separa.
10
Quando ele espirra, a luz brilha;11
da sua boca saem chamas,
libertam-se labaredas de fogo.
12
Das suas narinas sai fumo,
como de uma panela a ferver.
13
O seu sopro acende carvões,
com as chamas que saem da sua boca.
14
No seu pescoço tem tanta força
que diante dele todos sentem terror.
15
As dobras da sua pele são compactas;16
O seu coração é duro como a pedra,
como a pedra inferior de um moinho.
17
Quando ele se levanta, até os heróis tremem
e fogem, cheios de medo.
18
Espada que se virar contra ele não resiste,
nem lanças, dardos ou flechas.
19
Para ele, o ferro é como palha
e o bronze, como madeira carcomida.
20
As setas não o põem em fuga,
pedras lançadas com a funda
ficam leves como palha.
21
Igualmente leve lhe parece a maça
e ri-se do barulho das flechas.
22
A sua barriga de escamas afiadas23
Mal entra na água, põe-na a ferver
e transforma o lago num caldeirão.
24
Atrás dele fica um rasto luminoso,
as águas profundas parecem uma cabeleira branca.
25
Não há no mundo outro igual a ele ,26
O seu olhar desafia os mais orgulhosos;
é o rei de todos os animais selvagens.»
1
Job respondeu então ao SENHOR:2
«Reconheço que tudo é possível para ti
e que, para ti, nenhum plano é inatingível.
3
Como se atreve alguém a denegrir a verdade
com palavras insensatas?
Também eu falei, sem perceber,
de maravilhas demasiado grandes para mim.
4
“Ouve-me, por favor; tenho algo que dizer.
Quero fazer-te uma pergunta, para me responderes .”
5
De facto, eu mal tinha ouvido falar de ti,
mas agora vi-te com os meus próprios olhos.
6
Por isso, renego o que disse; arrependo-me
e faço penitência, cobrindo-me de terra e cinza.»
7
Depois de o SENHOR ter dito estas coisas a Job, disse também a Elifaz de Teman: «Estou muito irado contigo e com os teus dois companheiros, porque não falaram de mim com retidão, como fez o meu servo Job.8 Vão, por isso, ter com o meu servo Job e levem convosco sete novilhos e sete carneiros, para que ele os ofereça em sacrifício por vocês e interceda por vocês. Eu ouvirei o seu pedido e não vos tratarei como merecem as vossas loucuras, pois não falaram de mim com retidão, como fez o meu servo Job.»
9
Elifaz de Teman, Bildad de Chua e Sofar de Naamá fizeram o que o SENHOR lhes tinha ordenado e o SENHOR ouviu o pedido de Job.10
Depois de Job ter intercedido a favor dos seus companheiros, o SENHOR restabeleceu a antiga condição de Job e deu-lhe de novo todos os seus bens.11 Os seus irmãos e irmãs e todos os conhecidos de antes foram visitá-lo. Job convidou-os para comerem em sua casa e eles manifestaram-lhe a sua amizade e confortaram-no, por causa das desgraças, que o SENHOR tinha permitido que caíssem sobre ele, e cada um deles lhe deu uma quantia em dinheiro ou um anel de ouro.
12
E nesta última fase da vida de Job, o SENHOR abençoou-o ainda mais do que na primeira. E assim, Job chegou a ter catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil burras.13 Teve também sete filhos e três filhas.
14 A uma chamou Jemima; a outra, Quessia e à terceira, Queren-Hapuc .
15 No mundo inteiro não havia mulheres mais belas do que as filhas de Job e o pai deu-lhes uma herança igual à dos irmãos .
16
Depois disto, Job viveu ainda cento e quarenta anos e viu os seus filhos e netos e os seus descendentes até à quarta geração17 e morreu em idade avançada, feliz dos anos que tinha vivido.